Notou-se, então, que era passado. Os sonhos antes vívidos e brilhantes, agora jaziam tão opacos que quase não se viam, era passado. E os olhos morreram. E as mãos cansaram. O coração finalmente passou. Talvez fosse uma daquelas diversas vezes da vida em que não se sentia mais nada. Absolutamente nada. Todos tinham, em certo período, uma transição quase invisível entre o belo e o real. Não se sabia ao certo o momento em que a transição ocorria, ou sob quais circunstâncias, mas era certo que ela ocorria, e com frequência. E chegou para ela. Descobriu tantas inverdades que à tempos atrás a destruiriam. Porém, agora, ela estava no penoso tempo do real, em que nada sentia, e nada importava. Estava só, e fazia questão disso. Não tinha cabeça para pertencer à nada, não tinha nada e assim estava bem. Ah, ninguém entenderia o que se passava dentro dela. Ninguém descreveria com palavras, pois não lhes seria possível. As más línguas afirmariam que estava herdando a loucura aos poucos, dos antecedentes, mas ela não tinha medo disso, sabia que não era sobre isso que se tratava. Era do tempo real. E ninguém entenderia, por isso não explicava. Em suma, as mãos secas e os olhos congelados espantariam os que insistiram em ficar, e ela jamais conseguiria ficar triste por isso, não tinha mais esse poder. Porém, estava tão chateada! Todos que vinham e ficavam por um tempo, quando iam embora, levavam mais um pedaço. E de pedaços e pedaços, ela ficara sem nada. Nem se conhecia. Tinha tanto de todos, que não sabia mais quem era. Queria voltar no tempo, segurar à si mesma, pousar a mão nos cabelos, outrora lisos, e acariciar o rosto ainda jovem e afirmar a si mesma: "Não se perca, menina". E saberia, que menina como era, ouviria os conselhos, que se reconheceria neles, e pensaria por toda a madrugada sobre o assunto, e ouviria. Mas era tarde, e isso era terrível. O tempo passara, e com certeza não voltaria. Portanto, levantou o rosto e olhou firme para frente, resoluta a não lamentar-se por nada, e firme na decisão de que mais ninguém, absolutamente ninguém, levaria seus pedaços. Se contentaria com o que restou e tinha a certeza de que dia ou outro, seria feliz. Disso tinha certeza, pois, alguém muito confiável lhe afirmara uma vez: "Você será feliz". E por isso acreditou, iria à frente, e realizaria tudo que tivesse de ser feito. Aliás, quem sabe a vida não lhe aguardava com belas surpresas um pouco mais à frente?
Fincou os pés no chão e foi, mal sabendo se conseguiria, mas com a certeza de que ao menos tentaria.
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