quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Fogo

Diante do céu negro, eu era cinza. Não um cinza que desce e escorre tudo em frente, destruindo. Um cinza submisso, que sabe o que quer, que apavora-se em frente à correntes. Cinza claro. Diante do céu branco, éramos negros. Para contrariar tudo e todos, para causar alvoroço. Ninguém queria que chegássemos, e por isso vínhamos ainda mais cedo, para forçar presença, para fazê-los abrir a boca e falar contra nós. Era divertido somente. Não causava nada mais que uma leve incomodação, pois éramos de gelo. Um gelo tão duro que acabávamos sendo pedra até para o outro, impedindo que algo real se formasse. Puxei o nó que amarrava a ponta do coração e pensei que ele escorreria dentro de mim. Mas quem disse que o gelo derretera? Era imbatível.
Tomei um ar com a certeza de que nada mais me faria mal, afinal, quanto ainda se pode afundar quando chega o fim? É quase nada, o peito suporta.
As quatro estações e o doce cintilar das águas experimentaram minha fúria e caíram em risada. "Não assusta nem um grilo", disseram entre dentes, mas ainda pude ouvir. Eu era uma daquelas mentes que mostrava tudo ao contrário. Quem me visse - apesar da fajuta capa de autoconservação que me fazia previsível - me veria como inofensivo. Um animal entre tantos que nada podia fazer. Mas eu não era um animal, eu era muito mais que isso. Meu mecanismo de defesa era avançadíssimo - resultado de todos os traumas do passado - e mostrava aos outros que era previsível, para então desmascarar qualquer hipótese sobre mim. Isso fazia com que todos que tentassem me enfiar em um pote como quem guarda uma borboleta perdida, fossem constrangidos. A natureza assumiu que estava errada e percebeu que eu era forte, mas apesar do óbvio elogio, não sorri. As vezes me parecia infinitamente melhor ser fraco. Deitar a cabeça no colo de alguém e chorar até secar, passar temporadas de tristeza por que alguém se foi, ser normal. Infinitamente melhor do que ser seco. Do que não ter o que doar. Do que ter mãos frios e coração congelado. A natureza me olhou uma última vez, com a breve dúvida se me deixaria ir ou não, mas mal soube que jamais esperaria o veredito. Eu não esperava por sentenças, eu realizava as minhas próprias - algo comum para quem acostumou-se com a solidão. Movi as pernas silenciosamente e todos me olharam, esperando para ver se desabaria ou não. Foram frustrados. Apesar de ser o desabar em pessoa, não cai. Fazia tanto tempo que não caia que até tinha uma falta desordenada de ser como todos os outros. Andei até o fim do corredor, sem muita certeza de que realmente queria ir, mas estranhamente me sentia expulsa de todos os lugares que frequentava, então como poderia eu continuar tão indesejada?
Saí de lá e voltei para meu lugar de origem com a certeza de que era o único dos ambientes no qual ainda era bem-vinda e até mesmo esperada.

Ah sim, eu ainda possuía  a esperança de alguém fogo me encontraria.

E então, nada mais me impediria.
Algum dia, eu também seria fogo.  

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